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História da Maçonaria

Guia completo sobre a história da Maçonaria: das origens medievais às grandes lojas modernas, passando pela formação da tradição iniciática, a expansão global e a Maçonaria no Brasil.

Última atualização: julho de 2026
Resumo: A Maçonaria moderna nasceu em Londres em 24 de junho de 1717, mas suas raízes vêm das guildas de construtores medievais, documentadas desde o Manuscrito Regius (c. 1390). Este guia percorre a transição da maçonaria operativa para a especulativa, as Constituições de Anderson de 1723, a união de 1813 que criou a UGLE, as perseguições e a trajetória brasileira iniciada com o Grande Oriente do Brasil em 1822.

Das Guildas Medievais às Primeiras Lojas

A história da Maçonaria começa nos canteiros de obras da Europa medieval. Os pedreiros que erguiam catedrais góticas se organizavam em corporações de ofício, as chamadas guildas, que controlavam o acesso à profissão, guardavam técnicas de construção e amparavam os trabalhadores doentes ou as viúvas dos que morriam em serviço. Esses homens eram os maçons operativos: construtores de verdade, com mãos calejadas e segredos de ofício que valiam o pão de cada dia.

O documento mais antigo ligado a essas corporações é o Manuscrito Regius, um poema em inglês médio datado de cerca de 1390 e guardado hoje na Biblioteca Britânica. Ele descreve deveres morais e regras de conduta para os pedreiros, misturando instrução profissional com preceitos éticos. O Manuscrito Cooke, de aproximadamente 1425, segue a mesma linha. Juntos, eles mostram que a ligação entre o ofício de construir e um código moral já existia séculos antes de qualquer loja moderna.

Na Escócia, os Estatutos Schaw, redigidos por William Schaw em 1598 e 1599, deram às lojas de pedreiros uma organização formal, com registros escritos e regras de admissão. Muitos historiadores consideram esses estatutos a ponte documental entre a maçonaria operativa e a fraternidade que viria depois.

A Transição para a Maçonaria Especulativa

Entre os séculos XVI e XVII, as lojas operativas começaram a aceitar membros que não trabalhavam com pedra: nobres, comerciantes, estudiosos. Esses "maçons aceitos" buscavam na simbologia do ofício um caminho de reflexão moral, e não uma profissão. O registro mais citado dessa fase é o diário do antiquário inglês Elias Ashmole, que anotou sua iniciação em uma loja em Warrington no dia 16 de outubro de 1646.

Com o tempo, os aceitos passaram a ser maioria. As ferramentas do canteiro viraram símbolos: o esquadro para a retidão, o compasso para os limites das paixões, o nível para a igualdade. A construção deixou de ser de catedrais e passou a ser do próprio homem. É o que a tradição chama de maçonaria especulativa, a que existe até hoje.

1717: A Fundação da Primeira Grande Loja

Em 24 de junho de 1717, dia de São João Batista, quatro lojas de Londres se reuniram na taverna Goose and Gridiron, perto da Catedral de São Paulo, e fundaram a Grande Loja de Londres e Westminster, a primeira grande loja do mundo. Anthony Sayer foi eleito o primeiro Grão-Mestre. A data funciona como marco de nascimento da Maçonaria moderna: pela primeira vez, lojas independentes aceitaram uma autoridade comum acima delas.

O modelo se espalhou rápido. A Irlanda organizou sua Grande Loja em 1725 e a Escócia em 1736. Na França, as primeiras lojas surgiram na década de 1720, levadas por ingleses e jacobitas exilados. Nas colônias americanas, há registro de loja em Filadélfia já em 1730, e Henry Price recebeu autoridade para organizar a maçonaria em Boston em 1733. Benjamin Franklin, iniciado em 1731, imprimiu em 1734 a primeira edição americana das Constituições de Anderson.

As Constituições de Anderson (1723)

Seis anos depois da fundação da Grande Loja, o pastor presbiteriano James Anderson publicou as Constituições dos Franco-Maçons, o texto que organizou a fraternidade em bases escritas. O livro reúne uma história lendária do ofício, regulamentos administrativos e os famosos "Deveres de um Franco-Maçom", que definem o perfil do membro: um homem livre, de bons costumes, que acredita em Deus e não se envolve em conspirações contra o Estado.

Dois pontos das Constituições moldaram tudo o que veio depois. O primeiro é a exigência de crença em um Ser Supremo, sem impor religião específica. O segundo é a proibição de disputas religiosas e políticas dentro da loja. Esses princípios permanecem no centro do conceito de regularidade maçônica até hoje.

Antients contra Moderns e a União de 1813

A Maçonaria inglesa passou o século XVIII dividida. Em 1751, maçons insatisfeitos com mudanças rituais promovidas pela primeira Grande Loja fundaram uma grande loja rival, autodenominada dos "Antients" (antigos), acusando a original de ter modernizado demais o costume. Laurence Dermott, seu grande articulador, escreveu a constituição do grupo, o Ahiman Rezon. As duas obediências disputaram lojas, membros e legitimidade por mais de sessenta anos.

A reconciliação veio em 27 de dezembro de 1813, quando as duas grandes lojas se fundiram na Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE), sob o Grão-Mestrado do Duque de Sussex. A UGLE se tornou a referência mundial em matéria de regularidade e reconhecimento, papel que exerce até hoje a partir do Freemasons' Hall, em Londres.

Condenações e Perseguições

O crescimento da fraternidade incomodou. Em 1738, o Papa Clemente XII publicou a bula In Eminenti Apostolatus, a primeira condenação católica à Maçonaria, proibindo os fiéis de participar das lojas sob pena de excomunhão. Outras condenações papais se seguiram nos séculos XVIII e XIX. Regimes absolutistas de Portugal e Espanha também perseguiram maçons no mesmo período.

No século XX, a perseguição ganhou escala trágica. O regime nazista fechou as lojas alemãs, confiscou seus bens e enviou maçons a campos de concentração; estimativas históricas falam em dezenas de milhares de vítimas entre os países ocupados. Na Espanha de Franco, a Lei de Repressão à Maçonaria e ao Comunismo, de 1940, transformou a simples filiação em crime. Regimes comunistas do Leste Europeu também baniram as lojas. Em todos esses casos, a fraternidade só voltou a funcionar com a redemocratização.

A Chegada ao Brasil e a Independência

As primeiras lojas brasileiras surgiram no início do século XIX, em um país que fervia com as ideias liberais vindas da Europa. O marco institucional é a fundação do Grande Oriente do Brasil, em 17 de junho de 1822, no Rio de Janeiro, a partir de três lojas: Comércio e Artes, União e Tranquilidade e Esperança de Niterói. José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, foi seu primeiro Grão-Mestre.

A ligação entre a Maçonaria e a Independência é um dos capítulos mais estudados da história nacional. Joaquim Gonçalves Ledo e outros maçons articularam o movimento de emancipação, e o próprio D. Pedro I foi iniciado em 1822, chegando a Grão-Mestre do Grande Oriente meses antes de suspender as atividades maçônicas no fim daquele ano. Ao longo do Império e da República, maçons estiveram presentes em causas como a abolição e a separação entre Igreja e Estado. O tema tem página própria em Maçonaria no Brasil.

Do Século XX aos Dias de Hoje

O século XX consolidou o mapa atual da fraternidade. No Brasil, a unidade construída em torno do Grande Oriente se rompeu em 1927, quando surgiram as Grandes Lojas estaduais, reunidas depois na Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB). Em 1973, Grandes Orientes estaduais independentes formaram a Confederação Maçônica do Brasil (COMAB). As três vertentes convivem até hoje.

No mundo, a Maçonaria regular seguiu organizada em grandes lojas soberanas, uma por território, unidas por tratados de reconhecimento mútuo. As estimativas mais citadas apontam alguns milhões de membros em atividade, com maior concentração nos Estados Unidos, no Reino Unido e na América Latina. O panorama completo está em Maçonaria no Mundo.

Como se Estuda a História da Maçonaria

Separar história documentada de lenda é o desafio permanente desse campo. A tradição ritual fala de origens no Templo de Salomão; a pesquisa acadêmica trabalha com manuscritos, atas de loja e registros civis. Centros como o Museu da Maçonaria em Londres e as bibliotecas das grandes lojas mantêm acervos abertos a pesquisadores, e obras de referência como a enciclopédia de Henry Wilson Coil e os estudos de historiadores universitários dão a base do que se afirma com segurança.

Neste portal, seguimos o mesmo critério: datas e fatos citados vêm de fontes documentais ou de obras de referência reconhecidas. Quando um episódio é lendário ou controverso, dizemos isso com todas as letras.

Cronologia Essencial

  • c. 1390: Manuscrito Regius, o mais antigo documento da maçonaria operativa
  • 1598-1599: Estatutos Schaw organizam as lojas escocesas
  • 1646: Iniciação de Elias Ashmole, registro clássico de um maçom aceito
  • 1717: Fundação da Grande Loja de Londres e Westminster
  • 1723: Publicação das Constituições de Anderson
  • 1738: Bula In Eminenti, primeira condenação papal
  • 1751: Fundação da Grande Loja dos Antients
  • 1813: União que cria a Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE)
  • 1822: Fundação do Grande Oriente do Brasil e Independência
  • 1927: Surgimento das Grandes Lojas estaduais brasileiras
  • 1973: Fundação da COMAB

Para entender o que define uma loja regular hoje, siga para o guia completo da Maçonaria Regular.

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