A presença da Maçonaria no Brasil antecede a própria independência do país. Desde os últimos anos do período colonial, lojas maçônicas funcionavam em solo brasileiro — em geral clandestinamente, dada a proibição da Igreja Católica e a desconfiança da Coroa portuguesa. Ao longo dos séculos XIX e XX, a Maçonaria entrou e saiu do centro da vida pública brasileira, influenciou constituições e proclamações, e se fragmentou em múltiplas obediências que refletem as tensões históricas entre regularidade e liberdade doutrinária.
Os Primeiros Vestígios: Colonial e Iluminismo
O Brasil colonial era, oficialmente, território controlado pela Igreja e pela Coroa — dois poderes historicamente hostis à Maçonaria. No entanto, as ideias iluministas chegavam via Portugal, França e Inglaterra, especialmente entre letrados, militares e comerciantes.
Os primeiros registros de atividade maçônica no Brasil datam das últimas décadas do século XVIII. A Loja Reunião, fundada em torno de 1797 no Rio de Janeiro, é considerada por muitos historiadores como uma das primeiras lojas de que se tem documentação. Não há consenso sobre seu vínculo com alguma obediência estrangeira específica, e sua regularidade histórica é objeto de debate acadêmico.
O que é certo é que o ambiente intelectual favorecia a maçonaria: padres ilustrados, magistrados e militares circulavam por Portugal e pela Europa, onde tinham contato com as ideias da Ordem.
A Transferência da Corte e a Abertura dos Portos (1808)
A chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808 e a consequente abertura dos portos ao comércio estrangeiro criaram condições favoráveis para a Maçonaria. Comerciantes ingleses, que mantinham lojas regulares em seus países, passaram a operar no Brasil.
As primeiras lojas com vínculo formal e documentado com potências europeias surgiram nesse contexto. A influência britânica era particularmente forte no eixo comercial do Rio de Janeiro, e com ela vieram as práticas e o ideário maçônicos da tradição regular inglesa.
José Bonifácio de Andrada e Silva: O Patriarca e o Maçom
Nenhum nome na história da Maçonaria brasileira é mais central do que José Bonifácio de Andrada e Silva (1763–1838). Naturalista, estadista e maçom iniciado em Portugal e possivelmente na França e na Inglaterra durante seus longos anos de estudo e serviço à Coroa lusitana.
José Bonifácio foi iniciado na Maçonaria europeia ainda no século XVIII e trouxe consigo, ao retornar ao Brasil em 1819, tanto o conhecimento científico quanto as convicções políticas que o tornariam o principal articulador da independência. Sua filiação maçônica não era segredo — era parte de uma rede de relações que incluía liberais brasileiros e portugueses comprometidos com as transformações do século.
Como principal conselheiro de Dom Pedro I, José Bonifácio utilizou sua posição para avançar a causa da emancipação do Brasil. A historiografia não é unânime sobre o papel específico da Maçonaria no processo de independência — alguns historiadores atribuem influência direta, outros relativizam —, mas o fato de que figuras centrais da independência eram maçons é inegável.
Dom Pedro I e a Maçonaria
Dom Pedro I (1798–1834) é frequentemente citado como maçom. Há registros de sua iniciação na loja Comércio e Artes do Rio de Janeiro, por volta de 1822 — poucos meses antes do Grito do Ipiranga. Sua participação na Maçonaria era conhecida na época e gerou tensões com a Igreja Católica, que mantinha sua posição de condenação à Ordem.
A relação entre Dom Pedro I e a Maçonaria foi, no entanto, ambígua ao longo de seu reinado. Em 1823, o Imperador fechou as lojas maçônicas por decreto, em meio às tensões políticas que culminariam na dissolução da Assembleia Constituinte. Mais tarde, já exilado e envolvido nas guerras liberais portuguesas, Dom Pedro retomou seus laços maçônicos em Portugal.
O Grande Oriente do Brasil: Fundação e Cisões
O Grande Oriente do Brasil (GOB) foi fundado em 1822, com participação ativa de José Bonifácio — que chegou a ser seu primeiro grão-mestre. A criação do GOB representou a ambição de organizar a Maçonaria brasileira sob uma única obediência nacional, independente das potências europeias.
Ao longo do século XIX, o GOB passou por múltiplas cisões e reorganizações. A questão da regularidade maçônica e da orientação filosófica — regular versus adogmática — foi uma fonte permanente de conflito.
A Crise de 1863 e a Questão Religiosa
A relação entre a Maçonaria e a Igreja Católica atingiu um ponto crítico com a chamada "Questão Religiosa" (1872–1875). Bispos brasileiros, atendendo a bulas papais que proibiam a Maçonaria, confrontaram a Ordem diretamente. O conflito teve repercussões políticas profundas e contribuiu para o enfraquecimento da monarquia.
A Proclamação da República (1889)
A Maçonaria teve participação ativa no movimento republicano. Benjamin Constant, um dos principais articuladores da proclamação da república, era maçom. O Marechal Deodoro da Fonseca, que liderou o golpe de estado de 15 de novembro de 1889, também tinha vínculos maçônicos.
A relação entre Maçonaria e República brasileira é tema recorrente na historiografia, embora os historiadores mais rigorosos evitem generalizações sobre uma suposta "conspiração maçônica" organizada.
O Século XX: Fragmentação e Reorganização
O século XX foi marcado pela multiplicação de obediências maçônicas no Brasil e pela crescente tensão entre a tradição regular e a tradição adogmática.
As Cisões do Século XX
Ao longo do século XX, o GOB consolidou-se como a maior obediência maçônica do Brasil em número de lojas e membros, mantendo a exigência de crença no GADU e o reconhecimento da UGLE, obtido ainda em 1880. As tensões internas do período, porém, produziram duas grandes reorganizações: a cisão de 1927, que deu origem às Grandes Lojas estaduais, e as cisões estaduais posteriores que geraram os Grandes Orientes independentes.
As Grandes Lojas Estaduais e as Confederações
A partir da cisão de 1927 formaram-se as Grandes Lojas estaduais, hoje reunidas na CMSB (Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil), com ampla rede de reconhecimentos internacionais. Desde 1973, os Grandes Orientes estaduais independentes articulam-se na COMAB (Confederação Maçônica do Brasil). As três vertentes — GOB, CMSB e COMAB — convivem até hoje.
Entre as Grandes Lojas estaduais da CMSB estão:
- Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo (GLESP)
- Grande Loja do Estado do Rio de Janeiro (GLERJ)
- Grande Loja Maçônica do Estado do Rio Grande do Sul (GLMERS)
- Grandes lojas de outros estados brasileiros
Essas potências permitem que seus membros circulem com plenos direitos fraternais pelas lojas regulares de todo o mundo — um diferencial concreto para maçons que viajam ou residem no exterior.
A Situação Atual
Hoje, o Brasil possui dezenas de obediências maçônicas, com orientações que variam do rigorosamente regular ao francamente adogmático. Estima-se que a Maçonaria brasileira, em suas diversas tradições, reúna centenas de milhares de membros.
A tensão entre regularidade e adogmatismo continua presente. No entanto, há também movimentos de diálogo e reconhecimento de que ambas as tradições têm contribuições históricas e filosóficas legítimas — mesmo que não possam ser parte do mesmo sistema de reconhecimento mútuo.
Para quem considera ingressar na Maçonaria no Brasil, a recomendação é verificar explicitamente os tratados de reconhecimento da obediência de interesse — a lista da UGLE é o ponto de partida mais confiável. Veja como ingressar na Maçonaria para um guia completo do processo.
Perguntas Frequentes
A Maçonaria realmente participou da Independência do Brasil? Figuras centrais da Independência — como José Bonifácio e Dom Pedro I — eram maçons. Que a Maçonaria enquanto organização tenha "planejado" ou "executado" a independência é uma simplificação excessiva, mas a rede de relações maçônicas certamente facilitou articulações entre os protagonistas do processo.
O GOB (Grande Oriente do Brasil) é regular? A resposta depende da jurisdição e do período histórico. Sim. O GOB mantém a exigência de crença no GADU e é reconhecido pela UGLE desde 1880, além de manter tratados com dezenas de potências. As Grandes Lojas estaduais (CMSB) e os Grandes Orientes independentes (COMAB) mantêm redes próprias de reconhecimento. Para certeza sobre uma obediência específica, consulte a lista da UGLE ou os tratados publicados pela potência.
Qual é a maior potência maçônica regular do Brasil? Em termos de lojas e membros, as potências da COMAB variam muito de estado para estado. A Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo (GLESP) está entre as maiores do país, e o GOB é a obediência mais numerosa.
A Maçonaria ainda tem influência política no Brasil hoje? A influência política direta que a Maçonaria exerceu nos séculos XIX e início do XX não se compara à situação atual. Hoje a Maçonaria é uma ordem fraterna e filosófica sem agenda política institucional, embora seus membros individualmente possam exercer qualquer atividade política.
Onde posso encontrar a história maçônica do meu estado? As grandes lojas estaduais geralmente publicam históricos em seus sites oficiais ou em publicações próprias. O Arquivo Nacional e bibliotecas estaduais também têm acervos documentais sobre a Maçonaria no Brasil colonial e imperial.